Pedi recentemente ao colega Leonardo Rossatto Queiroz, andreense e conhecido de vista nas comunidades do município de Santo André e Futebol Alternativo, que escrevesse um texto sobre os esportes na cidade.
Como muitos já sabem, Santo André já foi uma grande potência na revelação de jovens talentos esportivos.
Gentilmente, o solícito Leonardo, dono do blog "
Política - Santo André", escreveu esse texto que eu publico abaixo. Muito obrigado pela atenção, Leonardo e sinta-se à vontade para escrever quando quiser se expressar aqui no P & P. Abraços.
A Natureza do Investimento Esportivo em Santo André
A cidade de Santo André tem uma tradição histórica no setor desportivo dentro do Estado de São Paulo. É a terceira maior vencedora dos Jogos Abertos do Interior, com 12 títulos conquistados (1970, 1972, 1976, 1977, 1980, 1981, 1983, 1984, 1985, 1986, 1988 e 1996). À parte o fato de que este tipo de título geralmente reflete a política de investimentos desportivos da prefeitura municipal, existem nos Jogos Abertos do Interior longas hegemonias de determinados municípios. São Caetano do Sul, por exemplo, venceu 12 dos últimos 13 jogos abertos do Interior. (a exceção foi em 2003, quando Santos venceu a 67ª edição dos Jogos em casa). Nesse período, Santo André vem tendo um desempenho mediano, mas em um contexto de piora a cada ano.
No entanto, os resultados nos Jogos Abertos do Interior não podem ser considerados um indicador determinante para determinar o status do investimento esportivo na cidade de Santo André. É algo muito relevante, sem dúvidas, mas, para falar sobre a política desportiva de Santo André, devemos nos deter em dois tópicos interligados entre si, como será demonstrado adiante: a história da Gestão Pública em Esportes na cidade e a opção de investimento em esportes das últimas gestões da prefeitura municipal.
Santo André tem uma história rica no que se refere ao investimento em esportes. A cidade, com a pujança econômica proporcionada pelas montadoras de automóveis, pela indústria de autopeças e pela indústria química a partir do final da década de 60, fez uma política de investimento no esporte de alto rendimento. Nesta época, foram melhorados o Complexo Esportivo Pedro Dell’Antonia (inaugurado originalmente em 1959) e foi erguido o Estádio Bruno José Daniel (inaugurado em 1969), símbolos do esporte na cidade até hoje. Até os anos 80, o Complexo Esportivo Pedro Dell’Antonia era considerado um dos melhores espaços de treinamento do país, além de servir de palco para inúmeros eventos esportivos importantes.
Com uma estrutura razoável e o investimento de indústrias da região no esporte de alto rendimento, Santo André tornou-se uma referência nacional no setor, tornando-se notória pelo time de voleibol da Pirelli, que foi base da seleção olímpica de voleibol que conquistou a medalha de prata nas Olimpíadas de Los Angeles, em 1984, e revelando talentos como o judoca Aurélio Miguel, responsável pela única medalha de ouro brasileira nas Olimpíadas de Seul, em 1988.
Na década de 1990, com a abertura econômica do país e a debandada das indústrias da região do Grande ABC paulista, o investimento privado no esporte de alto rendimento diminuiu drasticamente. Além disso, no início de 1997 houve um problema sério no âmbito esportivo na cidade: com a mudança da administração municipal em um cenário de ajuste fiscal, e a conseqüente diminuição dos investimentos municipais em esporte de alto rendimento, o antigo Santo André Clube (que não tem nada a ver com o clube de futebol), responsável pela estrutura do esporte olímpico de alto desempenho na cidade, recebeu uma proposta mais vantajosa, financeiramente, do recém empossado prefeito de São Caetano do Sul Luiz Tortorello, migrando de Santo André para São Caetano do Sul. Esta mudança ajuda a explicar tanto o enfraquecimento de Santo André no cenário estadual, no que se refere a esportes de alto rendimento, quanto a hegemonia de São Caetano do Sul no cenário esportivo estadual, que foi iniciada justamente em 1997.
Neste ponto, entra o segundo grande motivo pelo qual a gestão pública desportiva na cidade de Santo André encontra-se na situação atual: a opção de investimento da prefeitura municipal nas três últimas gestões.
Existem dois tipos de investimento em esportes: de um lado, o investimento em esportes de alto rendimento, voltado às competições de grande visibilidade, que proporciona, geralmente, uma propaganda positiva da cidade e um sentimento de orgulho de residência, seja nacionalista, regionalista ou municipalista. De outro, encontra-se o investimento desportivo como instrumento de inclusão social e de promoção do lazer e do bem-estar. Este tipo de investimento não está voltado para a prática desportiva de alto rendimento, mas para a prevenção de doenças e a melhoria das condições de vida da população através da prática desportiva.
Em Santo André, havia a predominância de investimentos visando o esporte de alto rendimento até 1996. Por razões financeiras (esporte de alto rendimento requer maior investimento) e políticas (o PT assumiu a prefeitura em 1997, com Celso Daniel, após um mandato entre 1989 e 1992), a opção da prefeitura municipal se concentrou no investimento desportivo como instrumento de bem-estar e qualidade de vida. De 1997 a 2008, houve e reforma de estruturas existentes nos bairros e a criação de estruturas novas, os CESA’s (Centro Educacional de Santo André), complexos educacionais que, além de abrigarem escolas municipais, tornaram-se centros de atividade desportiva. Qualquer um dos 10 CESA’s espalhados pela cidade conta com aulas matutinas e noturnas de Ginástica e modalidades desportivas, além de contarem com uma estrutura que inclui quadras poliesportivas e piscinas.
Neste contexto, o investimento em esportes de alto rendimento foi diminuindo progressivamente, e, como conseqüência óbvia, os resultados em competições foram minguando. Estruturas como a do Estádio Bruno José Daniel e do Complexo Desportivo Pedro Dell’Antonia encontram-se sucateadas e necessitam, além de modernização, de reformas estruturais urgentes, por razões de segurança mesmo.
No cenário nacional, a cidade atualmente só tem alguma força no âmbito esportivo no basquete feminino, no futebol, e, com muito boa vontade, no voleibol. A natureza dos investidores também mudou, refletindo as mudanças ocorridas no município nos últimos 20 anos: ao invés de indústrias investindo no esporte, hoje a cidade tem empresas do setor de serviços, como redes varejistas e Shopping Centers.
A situação não tende a melhorar na atual administração. O governo atual, eleito ano passado, não conta com um projeto integrado na área desportiva, e tende apenas a continuar com a política da administração anterior, aliada a investimentos pontuais feitos a toque de caixa, em caráter de urgência, como a solicitação de verbas junto ao governo federal para a reforma do Estádio Bruno José Daniel após a vergonhosa inundação dos vestiários do estádio, ocorrida em março deste ano, durante o jogo entre Santo André e Marília pelo Campeonato Paulista de Futebol. Outro indicador que descreve a falta de interesse da atual administração na questão esportiva é a alocação, na reforma administrativa aprovada pelo atual prefeito no início do ano, do assunto em uma única secretaria, ampla, que engloba todos os assuntos relativos à Cultura, Esporte e Lazer na cidade.
Toda esta política de investimentos, ou de não-investimentos, é fator determinante para o resultado pífio que Santo André obteve nos últimos Jogos Abertos do Interior. Um 9º lugar geral que reflete bem a falta de prioridade que o esporte competitivo vem tendo na cidade há mais de uma década.